“Eu comecei a fotografar quando nós chegamos na Europa, exilados, com o João [filho] pequeno, de colo, e eu dizia 'Precisa tirar retrato desse menino pra mandar pros avós, pra mandar pros amigos, para que acompanhem o desenvolvimento dele'.
(...) Nós fomos ao mercado - chama Marché aux Pus - lá na França (...) e aí eu vi uma máquina pendurada por um barbante, uma maquininha dessas de sanfona, baratinha mesmo. Compramos. A máquina era antiga, mas tinha as lentes maravilhosas; eram lentes Zeiss, era uma máquina alemã. E eu comecei a fotografar. E as fotografias saíam boas; eu fui me animando. Continuei.
De repente, me dei conta de que havia coisas que só eu podia fotografar, de Jorge – lugares onde não havia outro fotógrafo, só eu. Então, com personalidades, com amigos – com Neruda, Guillén, Sartre, Aragón, Paul Éluard, com essa gente toda que a gente conheceu lá.
Então, nós fomos pela primeira vez à URSS. [Jorge] tinha lá um livro ou dois traduzidos e precisava receber os direitos autorais. Mas eles só pagavam em rublo não-conversível, não pagavam em moeda estrangeira. Aí Jorge disse 'o que é que a gente vai fazer com esse dinheirão?'. Primeira coisa: 'eu quero comprar uma máquina fotográfica boa, a melhor que tiver aqui'. E aí nós fomos, (...) fomos comprar a máquina. E comprei uma máquina linda, com lentes alemães, com disparador automático. Com essa máquina, aí que eu me esbaldei.
Então, eu queria dizer apenas que eu não me considero uma fotógrafa fantástica, maravilhosa, cheia de truques nem nada. Eu só me considero uma fotógrafa que sempre tive oportunidades, sempre tive sorte, de estar com Jorge em momentos muito especiais...”



